Baianês pode ser culpado por Instagram excluir perfis de influencers famosos

O quanto você é dependente do Instagram? Hoje é muito comum passar o dia publicando stories do seu cotidiano, dormir olhando fotos alheias e acordar querendo saber novas publicações de amigos e celebridades na rede social. Nem aguenta esperar até quinta-feira para meter uma foto #tbt, jogando em qualquer dia da semana mesmo. Se você é um desses, certamente o Instagram se tornou parte integral de sua vida. Agora imagine utilizar esta plataforma como um ganha-pão e, de repente, descobrir que seu perfil com milhões de seguidores foi banido da rede social. Isso é uma realidade entre influenciadores baianos, que recentemente tiveram suas contas desativadas sem um motivo aparente. Contudo, um detalhe pode ter bugado o Instagram, que desconhece uma língua só falada aqui: o baianês.

Entre julho e início de setembro, quatro perfis baianos tiveram suas contas desativadas: o Comédia Baiana, Franklin Reis, Alesson Lima e Dum Ice. Dessa turma, apenas Alesson, por meio de liminar da Justiça, conseguiu recuperar seu perfil. Os demais precisaram fazer um perfil reserva e aguardam ações judiciais para terem suas páginas também retomadas. Segundo Felipe Rios, administrador do Comédia Baiana, a plataforma não explica claramente o motivo do banimento.

“Segundo ele (Instagram), eu violei suas diretrizes. Não consigo mais acesso desde a última sexta-feira (3). Eles não especificaram o motivo, apenas me responderam que foi uma violação. O que eu acho estranho, se você reparar bem, está acontecendo direto com os digitais influencers baianos. Só os baianos, véi. O Instagram não explica isso de ser só a gente”, completa Felipe, que perdeu cerca de R$ 10 mil em patrocínio com o perfil banido. Hoje ele tenta fazer seu trabalho num usuário temporário, no Comédia Baiana 2, com 45 mil seguidores. Bem diferente dos mais de 700 mil na página desativada.

O Instagram não explica, mas o baianês pode elucidar uma possível perseguição involuntária. Pensem bem. Todos os perfis citados acima se utilizam de um humor baiano raiz, com gírias e um tempero especial de palavrões e expressões que, para outras culturas, são ofensivas. Quer exemplos? Até para elogiar, nós xingamos: “Essa desgraça é gente boa”. “Aquele bicho é bonito como a porra”. Sem contar as calúnias e injúrias do cotidiano soteropolitano. “Venha cá, ladrão”, Desce daí, seu corno!”. Segundo as diretrizes do Instagram que regulam o que pode e não pode na rede social, nossas expressões do dia a dia rendem punição na plataforma, pois se enquadra no desrespeito a outros membros da comunidade e tem intenção de desagradá-los e constrangê-los. Se alguém não gosta do conteúdo e se sente ofendido, faz uma denúncia ao Instagram, que avalia a publicação. É aí que o banimento dos baianos começa.

“Não tenho redes sociais, apenas Zap. Mas acredito que existe esta possibilidade de represaria por conta de nosso baianês. Antes da internet, nossas expressões ficavam restritas à região ou alguém que vinha conhecer Salvador. Com as redes, todo mundo passa a conhecer nosso vocabulário, mas nem todo mundo entende. Isso gera muitos problemas, incluindo estas exclusões do Instagram. Temos particularidades e expressões que podem levar a uma ofensa de outra pessoa de fora. Eu levei um tempo para entender a linguagem baiana e precisei até fazer um dicionário”, diz Nivaldo Lariú, carioca e autor do famoso Dicionário de Baianês.

O Instagram admite que pode existir um choque entre as diretrizes de uso e a gíria baiana. Porém, com mais de 1 bilhão de usuários, é quase impossível para a plataforma se atentar a todas particularidades linguísticas. “Contas que violam essas regras repetidamente podem ser removidas da plataforma. Nossos padrões se aplicam a todos, no mundo inteiro, e a todos os tipos de conteúdo”, explicou o Instagram, em nota.

Para Josane Moreira, doutora em letras e especialista em sociolinguística, pode existir um preconceito linguístico no caso dos influenciadores baianos que tiveram suas contas canceladas. “Às vezes o que choca é o inesperado ou o diferente, mas isso não significa o ‘errado’. Muitas vezes usamos o ‘porra ou o ‘filho da p…’ aqui na Bahia como um elogio e não como uma ofensa: ‘Seu filho da p…, você conseguiu a medalha, porra! Parabéns!’. Entre nós, isso é tranquilo, mas em outro grupo sociocultural pode chocar. Conhecer uma língua/dialeto envolve conhecer a história, a cultura e a sociedade que a/o fala. Não se pode isolar a língua dos seus falantes”, defende Josane, que não acredita que os palavrões foram decisivos. “É uma questão regional também, por sermos nordestinos. O carioca xinga mais que o baiano. Acontece este preconceito linguístico com eles?”, completa.

O preconceito não vem apenas do Instagram, mas de usuários que se sentem ofendidos com publicações dos influenciadores baianos e acabam denunciando os perfis. É recorrente e não engloba apenas páginas com mais de 500 mil seguidores. “Um dos motivos mais fortes hoje, são pessoas que denunciam o perfil por algum motivo, às vezes até de sacanagem ou porque não entendem a publicação. Uma vez vi o perfil de uma portuguesa criticando a música brasileira que dizia “eu tô com fome e quero merendar”. Ela não sabia o que era merendar e confundiu com merda. Acabou denunciando”, lembra a jornalista e social media, Carol Soledade, que administra perfis no Instagram. “Temos muito cuidado com as publicações. Não temos este problema”.

Segundo o Instagram, a denúncia é um fator importante na hora de avaliar se uma publicação é ofensiva, mas não é decisivo. O número de vezes que algo é denunciado não determina se será removido do Instagram. A rede pode receber mil denúncias de uma postagem e avaliar que não fere a diretriz, mas pode receber apenas uma de outra publicação e constatar que é passivo de remoção. Outra: a plataforma assegura que a exclusão não é sumária. O dono do perfil recebe diversas notificações até chegar no banimento definitivo.

Grana Entre os baianos que tiveram suas contas desativadas, apenas Alesson comemora sua reativação. E olhe que ele já teve sua conta cancelada duas vezes. Na última, foram duas semanas no limbo. “Uma luta, meu filho. Passei umas duas semanas no prejuízo. Precisei acionar a justiça para ter meu perfil de volta. A gente tem uma forma de se expressar bem forte, né? Isso que faz o baiano ser diferenciado. Acredito numa falha do Instagram em não saber diferenciar um ataque ou assédio de um termo regional. Falta organização na plataforma, mas acho que precisamos pegar leve também. Está no sangue, do nada sai um porra, mas precisamos filtrar. É um cuidado dos dois lados”, disse Alesson.

Dum Ice não teve a mesma sorte. Com mais de 2 milhões de seguidores no Instagram, o comediante tinha acabado de comprar uma casa própria e estava dormindo o sono dos justos, quando a plataforma derrubou seu perfil, em plena madrugada de julho. Sem contar conversa, fez outro perfil, que chegou a 500 mil em uma semana. Também foi derrubado. Ele já está no terceiro, com 544 mil. Dum já acionou a Justiça para ter o seu primeiro de volta, mas ainda não obteve êxito.

“Existe a possibilidade de retornar, mas algumas contas voltam depois de 7 meses. Eles demoram muito de responder e sempre fica em análise. Perdi 50% da minha renda. Meu perfil reserva caiu também e já estou no terceiro, com 500 mil seguidores. Dá pra ganhar uma grana, mas não é a mesma coisa de 2 milhões que tinha. É difícil. Logo agora que comprei minha casa e preciso trabalhar. Não posso ficar sem Instagram”, disse Dum, que atribui a mudança repentina das diretrizes do Instagram pela enxurrada de perfis desativados. “Eles mudaram sem avisar a ninguém”, lembra. O Instagram, de fato, mudou e deixou suas diretrizes mais rígidas justamente em julho, início dos cancelamentos.

O Instagram atualmente é a terceira maior rede social do mundo, em número de usuários, perdendo apenas para o Facebook e YouTube. Com 1,2 bilhão de pessoas cadastradas, o Instagram é o primeiro em taxa de engajamento. Alguns estudos apontam que 500 milhões de usuários acessam pelo menos uma vez ao dia o Instagram e boa parte gasta, em média, uma hora na plataforma, diariamente. Com um céu aberto para publicidade, um bom conteúdo, seguidores e engajamento dá para faturar uma grana. Segundo a agência Later, especializada em marketing digital, com 10 mil seguidores já é possível faturar cerca de R$ 2.500 em publicidade. Caso tenha um milhão te seguindo, como é o caso dos influenciadores baianos cancelados, a cifra pode chegar na média de R$ 50 mil, todo mês.

Mesmo assim é bom tomar cuidado e não depositar todas as fichas apenas nas redes sociais. Vale lembrar que não se trata de um lugar público. O Instagram tem dono e quer faturar mais do que você. “Costumo dizer que depositar todas as suas fichas em redes sociais é construir puxadinho em casa alugada. É preciso ter consciência que as redes sociais pertencem a empresas que só visam um único objetivo: o lucro delas próprias. Quando essa conta não fecha em favor delas, as regras são rapidamente mudadas e isso pode repercutir financeira e negativamente para quem só depende disso para sobreviver”, disse Humberto Oliveira, fundador do site Buteco na Net e o Canal Diário do Curioso. Ele explora as redes sociais, mas não abre mão das suas plataformas próprias.

“Acho que os influenciadores precisam ter em mente que tudo na internet é composto de ciclos e esses ciclos são definidos basicamente pela tecnologia, experiência dos usuários, potencial publicitário e adaptação. Este fenômeno de mudança de regras ocorreu recentemente, quando o Facebook resolveu da noite para o dia diminuir o alcance das páginas da rede social. Donos de páginas com milhões de seguidores viram de repente suas postagens sendo entregues para apenas 10, 20% do público. Foi registrado o sepultamento de quem ganhava dinheiro vendendo publicidade em suas páginas”, completa Humberto.

Com mais de 1,6 milhão de seguidores, o influenciador baiano Leozito continua fazendo comédia com o tempero baiano, mas agora prefere pedir ajuda aos seus assessores quando alguma postagem dá margem para Mark Zuckerberg, dono do Instagram, passar o rodo. Ele já teve publicações excluídas pela rede, mas nunca foi cancelado. “Já recebi notificação, eles apagam o conteúdo imediatamente, foi denunciado como nudez e conteúdo sexual, mas o vídeo não tinha nada demais. Acho que Mark está muito sensível”, brinca Leozito. Alguém pode presentear Zuckerberg com um Dicionário de Baianês?

Diretrizes para evitar o ban do Instagram Direito de imagem: Compartilhe somente as fotos que você tirou e os vídeos que gravou ou aqueles que tem direito de compartilhar.

Publique fotos e vídeos apropriados para um público variado: nada de relações sexuais, genitais e foco em nádegas totalmente expostas nas publicações. Mamilos, caso não seja para campanhas de saúde, também não pode. Permitido pinturas e arte que contenha nudez. Fotos infantis também caem na malha fina, como criança tomando banho na banheirinha.

Promova interações sinceras e significativas para evitar spam: O Instagram quer evitar seguidores artificiais, curtidas de robô, entre outros artifícios para bombar o perfil de forma rápida, mas falsa. Também não pode publicações repetitivas, principalmente comerciais. Não ofereça dinheiro nem brindes em dinheiro em troca de curtidas, seguidores, comentários ou outro tipo de engajamento.

Dentro da lei Ipsi literis: “O Instagram não é um lugar para apoiar nem exaltar terrorismo, crime organizado ou grupos organizados de propagação de ódio. Também não é permitido oferecer serviços sexuais, comprar ou vender armas de fogo, álcool e produtos de tabaco entre indivíduos”.

Respeito a outros membros: é aí que mora o perigo para os influenciadores baianos. “Queremos promover uma comunidade diversificada e positiva. Removemos conteúdo que contenha ameaças reais ou discurso de ódio, conteúdo que ataque indivíduos privados com a intenção de degradá-los ou constrangê-los”, prega o Instagram. Cuidado quando chamar alguém de corno no Instagram. É crime contra a honra.

Bullying: a comunidade do Instagram se preocupa com todos e, geralmente, é um lugar em que as pessoas que enfrentam problemas difíceis, como distúrbios alimentares, autoflagelação ou outros tipos de automutilação. “Caso esse tipo de comportamento seja denunciado, removeremos o conteúdo ou desativaremos as contas que o publicarem”.

Do Correio 24 horas.

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