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Acarajé se torna patrimônio do Rio e causa polêmica entre baianos

Baianas querem que poder público tenham rigor na preservação do acarajé.

Alimento sagrado para o candomblé e oriundo de África, o acarajé se tornou patrimônio histórico e cultural no Estado do Rio de Janeiro e o fato gerou ciumeira e grande repercussão: na Bahia, onde chegaram os primeiros africanos escravizados, o acarajé – palavra iorubá onde akàrà significa bola de fogo e jè significa comer - ainda não virou patrimônio e vem tendo sua essência desconfigurada.


Pelo menos é o que afirma a presidente da Associação de Baianas de Acarajé e Vendedoras de Mingau (Abam), Rita Santos. “Fizeram lá o que já deveria ter sido feito aqui, onde o acarajé tem virado bolinho de Jesus, bolinho cor de rosa, com doce de leite, e diversas aberrações que desconfiguraram o que de fato é o acarajé e isso afeta também nossa cultura”, afirma.


No Rio de Janeiro, o projeto de lei que deu ao acarajé o posto de patrimônio histórico e cultural é da deputada estadual Renata Souza (PSOL), parlamentar negra e religiosa do candomblé. Embora o fato tenha gerado "revolta" em parte dos internautas e da sociedade baiana, é importante ressaltar que o acarajé não é um alimento cuja comercialização tenha se iniciado exclusivamente na Bahia. A atividade comercial surgiu no período da escravidão por mulheres alforriadas e ganhou força ao mesmo tempo nas cidades de Recife e no Rio de Janeiro - esta última se tornou capital do país após Salvador.


À época chamadas "escravas de tabuleiro", ou de quituteiras, elas garantiram não só o sustento de suas famílias, como também a liberdade de alguns membros com as vendas do acarajé e de outros quitutes como o mingau.


Certo é que tiveram papel fundamental para fortalecer os laços de sociabilidade da comunidade negra nos centros urbanos. “O acarajé começou em três estados. Rio, Bahia e Pernambuco. Na época da escravidão, a Quinta da Boa Vista, no Rio, tinha mais vendedora de acarajé do que aqui. Que na época a gente chamava de quituteira, depois que passamos a chamar de baiana”, lembra Rita Santos.


Apesar do acarajé ser nacionalmente tombado pelo Iphan desde 2005, na Bahia apenas o ofício das baianas de acarajé é reconhecido como patrimônio cultural imaterial pelo governo estadual. O reconhecimento chegou em outubro de 2012 pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultura do Estado da Bahia (IPAC) e na época foi considerado uma vitória das baianas, que desde então travam uma luta para que não se descaracterize o ofício como vem acontecendo.


“Aqui raramente você vê um baiana trajada. Estão de camiseta, toca descartável. A gente vê bíblia dentro de tabuleiro, baianas de sandália e toca, vemos elas vestidas de todos os jeitos, vendendo bolinho com bacalhau, com tudo que você imaginar dentro, um verdadeiro arremedo”, acrescenta a presidente da ABAM.


Segundo Rita, passados 11 anos, a categoria ainda enfrenta diversos desafios, inclusive o de reforçar que o acarajé um alimento do candomblé, fruto da ancestralidade africana. “Precisamos de uma regulamentação, de uma fiscalização, para não deixar que nossa cultura seja perdida com o tempo. O que a deputada do Rio fez é o que também tinha que ser feito aqui. Ela pede para regulamentar, para não ter bíblia em tabuleiro, porque ela viu que o que aconteceu aqui, também começava a acontecer por lá”, declarou Rita Santos, acrescentando ainda que a Associação existe no território fluminense, em São Paulo e no Piauí.


da Tribuna da Bahia | Por Hieros Vasconcelos Rêgo

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